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MORTE DE CEARENSE EM MANICÔMIO É TEMA DE QUEM MATOU DAMIÃO?

Damião Ximenes Lopes, 30 anos, afetado por transtornos mentais, foi internado na Casa de Repouso Guararapes, em Sobral. Três dias depois, durante uma visita, a mãe o encontrou em situação deplorável: sangrando, cabeça inchada, cheio de hematomas, mãos amarradas para trás e sujo de fezes e urina. Era 4 de outubro de 1999 e Damião morreu antes que a família pudesse pedir ajuda.

Dezoito anos depois da morte que ganhou repercussão internacional, os alunos da 27ª turma do Curso de Iniciação Teatral Acontece (Cita) levam para os palcos a montagem Quem Matou Damião?, que parte do caso real para debater os estereótipos da loucura e outros temas. O grupo de nove atores estreia a peça domingo, 24, no Teatro Antonieta Noronha, sob direção de Almeida Júnior, diretor da Companhia, e de Renato Abê, dramaturgo e repórter do O POVO. A temporada segue até outubro.

O emblemático caso de Damião é ponto de partida para uma série de querelas empregadas pelo grupo: questões de gênero, sexualidade, papel feminino, poder, coerção social e a chamada ‘normalidade’. “Nós queremos debater, nós queremos pensar sobre a problematização do que é considerado normal e do que não é considerado na nossa sociedade”, aponta Tálita Camila, atriz estreante que faz dois papéis ao longo da montagem.

O elenco também é composto por Narieudes Lima, Felipe Pereira, Felipe Viana, Geyson Costa, Maddu Andrade, Mailson Oliveira, Viviane Vale e Nayra Cordeiro.

Para o palco do Teatro Antonieta Noronha, os atores estreantes vão levar uma dramaturgia construída coletivamente, com finalização de Renato, a partir de pesquisas, conversas e processos artísticos feitos na sala de ensaio. “O curso trabalhou com o bojo do ator-criador. E nós levamos ideias que nos inquietavam, que nos moviam. A partir do caso que aconteceu em Sobral, conseguimos colocar e pincelar várias questões sociais que nos inquietam”, aponta Viviane Vale, também estreante nos palcos. “A narrativa criou profundidade. Para mim, os elementos foram surgindo. Eu percebo um espetáculo forte, mas sem estar pesado”, explica Viviane.

O público que assistir à peça terá uma pergunta pendurada como uma lâmpada: quem, afinal, matou Damião? A resposta não é clara e as possibilidades, abertas e intangíveis, são muitas: sociedade, estado, escolhas médicas, preconceito, doença. O enredo começa com a chegada da mãe de Damião à chamada “casa de repouso”, percorrendo corredores e buscando respostas sobre a conjuntura do filho. Com o evoluir das cenas, os pensamentos e as personagens ficam mais diluídas - alcançando um estado de catarse sobre conceitos, males sociais e vozes.

A repercussão internacional do caso de Damião inclui a condenação do Brasil na Corte Interamericana da Organização dos Estados Americanos (OEA) por violação de direitos humanos. De acordo com a sentença, inédita para o País e publicada em 2006, o Brasil não cumpriu sua função de respeitar e garantir os direitos de Damião. À época, o Governo Federal desembolsou US$ 140 mil em indenizações para a família do paciente. E, apenas em 2009, dez anos após a morte de Damião, a justiça brasileira condenou seis pessoas por lesão corporal - incluindo o dono da casa de repouso, que foi fechada -, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e o médico que estava de plantão.


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